Tentados no Deserto da Vida

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Primeiro Domingo da Quaresma - 21/02/2010

Textos Bíblicos: Dt 26.1-11/ Rm 10.8b-13/ Lc 4.1-13

Enfim, chegou a Quaresma! O Tempo da Igreja chamado Quaresma – período de quarenta dias que antecede a maior festa do cristianismo, a Páscoa do Senhor Jesus – faz um convite ao Povo Eleito: reflitam sobre as escolhas que vocês têm feito no dia a dia da vida.

A Quaresma é tempo forte, austero: na liturgia do culto não cantamos o “aleluia”, palavra de louvor; a cor dos paramentos é o roxo, cor da sobriedade própria de quem não está festejando, mas refletindo, pensando acerca das opções na vida. Podemos dizer que a Quaresma é o grande retiro anual da Igreja, conseqüentemente, dos cristãos e cristãs. Retiro não é local geográfico como pensam muitos, mas atitude na vida.

A Quaresma é o retiro anual da Igreja, pois nela somos convidados a nos retirar para dentro de cada um de nós a fim de sondar nossos corações à luz da Palavra. Como nosso paradigma maior ou como nós protestantes dizemos, “nossa única regra de fé e prática”, é a Palavra de Deus que se encontra não na letra, no texto, mas no “espírito” das Escrituras, é ela que deve nortear a vida; ela é nossa bússola nesta viagem existencial que começamos a fazer ao nascermos.

Hoje, primeiro domingo da Quaresma, a Igreja nos chama à reflexão a partir da leitura dos textos acima citados. A primeira leitura vem do livro do Deuteronômio; a segunda da Carta de Paulo aos Romanos e o Evangelho – centro e coração da liturgia da Palavra – nos recorda a tentação de Jesus no deserto. O que, à princípio, tem tais leituras a ver umas com as outras?

Todas as leituras nos levam à reflexão sobre nosso caminhar no “deserto da vida”. O livro do Deuteronômio foi escrito tendo como estrutura literal um conjunto de textos chamados de “Discursos de Moisés”. Presumidamente, tais discursos foram pronunciados pelo grande líder e modelo de profeta na planície de Moabe, portanto, no deserto antes de entrarem na Terra Prometida. Moisés em seus discursos (pregações) traz à memória do povo de Deus a aliança Dele com Seu Povo Eleito.

O texto de hoje fala sobre as primícias da terra, os frutos bons que são prometidos por Deus na Terra da Promessa. Moisés diz ao povo que ao entrar naquela terra, eles devem retirar os primeiros e melhores frutos e consagrá-los ao Senhor, professando, ou seja, confessando a fé Nele, que é o Autor e o Doador daqueles frutos. Tal costume não é exclusivo do povo hebreu. Os povos antigos, como os cananitas, originários da terra de Canaã, também faziam isso: retiravam da colheita os primeiros frutos e os consagravam aos seus deuses, no caso de Canaã, a Baal, pois foi Baal, segundo a crença deles, que ouviu seus pedidos por uma boa colheita, quando eles praticavam os ritos ou festas de fertilidade. A diferença é que, ao contrário dos cananitas, Israel não precisava celebrar rito algum de fertilidade, nem consagrar como forma de agradecimento fruto algum das suas primícias aos ídolos, pois para Israel, para o Povo Eleito de Deus, é Deus e não os ídolos, o Autor e o Doador deste milagre: o dom do alimento.

Os versículos de cinco a dez é o coração do nosso texto, a profissão de fé que todo aquele que crê que somente o Senhor, Deus vivo e verdadeiro é o Autor e o Doador de todo bem, deve fazer. Tal profissão de fé reconhece que não adianta ao ser humano trabalhar penosamente de sol a sol na lavoura se Deus não abençoar tal trabalho. Tudo vem de Deus, a começar as forças humanas para trabalhar o solo, a semente que será plantada, a chuva que irá regar a semente, o sol que a fará germinar e crescer e frutificar. Tudo vem de Deus.

Desta maneira, ao reconhecer que tudo vem de Deus, o Povo de Deus abandona todo egoísmo, toda presunção, todo sentimento de auto-suficiência, ao mesmo tempo, se entrega a Deus e o confessa: tudo vem de ti, Senhor; e das tuas mãos, to damos!

Consagrar as primícias ao Senhor é reconhecer que se não fosse a ação Dele na vida do Povo, desde o nascer até ao pôr do sol - este Deus que até mesmo quando dormimos nos concede o pão, este Deus que é Amor e que concede dons, por isso, é Deus Gracioso – de nada adiantaria ao ser humano trabalhar com afinco. É Ele que, nas palavras de Jesus, “faz nascer o sol e descer a chuva sobre justos e injustos”. Dele, como diz o Salmista, é a terra, o mar e tudo o que neles há; portanto, nada mais que justo: é justo louvá-lo, reconhecendo que sem Ele, nada somos e nada temos.

Existe sempre uma tentação – e das mais fortes – que sondam os nossos corações: é a tentação da auto-suficiência, que nos faz colocar o pronome possessivo “meu ou minha” antes de tudo o que de concreto temos na vida: meu carro, minha casa, meu dinheiro, meus filhos, meu companheiro, minha esposa, meu solo, minha conta bancária, meu, meu, meu!

Ora, quantas vezes não pensamos, até mesmo dizemos essas coisas? Isso vai nos minando a consciência e este mantra do pronome possessivo quando se instala no nosso coração faz um estrago tremendo e então passamos a nos sentirmos “os tais”: eu posso, eu tenho, eu compro, eu farei, eu, eu, eu!

A Quaresma é tempo de reflexão para os filhos e as filhas de Deus, povo eleito do Senhor cujo número forma a Igreja. Tempo de rever caminhos e tempo de refletimos sobre nossos atos, pensamentos e atitudes. Hoje, o Espírito de Deus, pelas Escrituras, nos convida: abandonem a auto-suficiência, o egoísmo; abandonem os pronomes possessivos que nos cegam e nos fazem auto-suficientes.

Tal como o povo que estava prestes a tomar posse da Terra da Promessa, nós, o Novo Israel, também devemos consagrar, com profissão de fé, as primícias que temos recebido das mãos de Deus. Isso será antídoto contra a tentação da auto-suficiência em nossas vidas! Tal ato, o de consagrarmos nossas primícias ao Senhor, nos recordará, todas as vezes que o praticarmos, que somos o que somos pelo Senhor; que temos o que temos pelo Senhor; que nossas forças, nossa saúde, nosso vigor vem do Senhor. Que sem Ele nada podemos fazer! Tudo vem de ti, Senhor, e das tuas mãos, to damos! É esta profissão de fé que somos como Povo Eleito, convidados a fazer nesta hora!

Mas a tentação da auto-suficiência não é a única que sonda os nossos corações e mentes. Podemos ter certeza plena disso, pela leitura do Evangelho de hoje, pois assim como Jesus foi tentado no deserto, nós também somos tentados nos desertos da vida.

Segundo Lucas, o autor do Evangelho, três foram as tentações que o Adversário das nossas almas tentou a Jesus: a tentação ventre, a tentação da glória e do poder e a tentação da soberba. Quem, entre os humanos, também não passam por tais tentações nesta vida?

O deserto, na Bíblia, é o símbolo do lugar de prova, de experimentações. Assim como nossa vida, em muitos momentos, é cheia de provas e experimentações, o deserto é o local de experiência dura, solitária, feroz. Jesus foi levado ao deserto para ser tentado pelo Adversário, porém, enfrentou o deserto não sem a arma mais poderosa para vencê-lo: “Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi guiado pelo mesmo Espírito, no deserto...” (Lc 4.1).

Assim como Nosso Senhor, se enfrentarmos as tentações nos desertos das nossas vidas, sem a força e o poder do Espírito, seremos derrotados, nós sucumbiremos! Para enfrentar o deserto, é preciso a força e o poder que vem de Deus, caso contrário, tão certo como o sol se levanta a cada manhã, seremos aniquilados e subjugados pelas tentações.

As tentações pelas quais Jesus passou são as mesmas que passamos. Nós também, na vida, muitas vezes e de muitas maneiras, somos tentados pelo que há de mais básico em nós. São as forças que nos impelem à sobrevivência: comer é uma delas. Sem comida, morremos.

Muitas vezes, na luta pela sobrevivência – casa, educação, alimentação, saúde – somos tentados a conseguir todas essas coisas pelo caminho mais fácil, sem trabalho, sem suor, dando um “jeitinho” aqui e ali. Outros vão além e tomam posse do que não lhes pertencem, roubam e até matam para conseguir o que querem. Muitos fazem dos outros os degraus que formam a escada para subirem na vida: atropelam todos os que lhes cruzam o caminho da ascensão social.

Outros, cristãos inclusive, só se preocupam com o lado material da existência: comida, roupa, casa, carro etc. Jesus sabia disso muito bem, tanto que no Sermão da Montanha adverte os que lhes escutam a Palavra: porque andais ansiosos por comida e por roupa? Por que andais ansiosos com o que é efêmero e passageiro nesta vida? Olhai os lírios do campo e as aves do céu... Meu Pai os alimenta e fará a mesma coisa com vocês, seres humanos de pouca fé!

Ah, meus irmãos, que tristeza olhar para os lados e ter a consciência de que falsos mestres e falsos profetas corrompem o Evangelho da Graça! Quantas igrejotas abertas em cada esquina, que oferecem um falso evangelho! Camelôs da fé que prometem ao povo ávido de riquezas e bens um caminho fácil, mas que se revela mentiroso tal como mentiroso é o Diabo!

Os que crêem no Deus Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo sabem que valemos mais que pássaros e lírios e que, por isso, Ele, que alimenta as aves dos céus e os lírios do campo, também nos alimentará! Sofrer com isso, andar ansioso com isso, com o que pode matar a fome do corpo, com o que pode cobrir a nudez do corpo, nos desvia do que verdadeiramente importa: o pão que sacia nossa fome espiritual e a roupa que nos cobre a nudez existencial.

Quantos que procuram nas igrejotas o alimento do corpo, a veste do corpo e estão nus e com fome! Quantos que se concentram nessas coisas, que passam, esquecendo das verdadeiras, que não passam e se perdem para sempre! “Louco! Hoje mesmo pedirão a tua alma e tudo o que tens, para que te servirá?”

Por fim, a tentação da soberba, da glória que passa é algo que sempre ronda nossos corações, principalmente se temos um bom trabalho, uma boa remuneração salarial, um bom carro, casa própria em lugar nobre e todas essas coisas que chamamos de bens ou de poder de consumo.

Desgraçadamente muitos de nós buscamos avidamente tais coisas e nos perdemos nessa busca insana por glória e por coisas que não levaremos para a sepultura. Impressionante o elevado número de pessoas que lotam as igrejotas ávidos por um deus mágico e irreal, que promete bens passageiros se tais “inocentes funcionais”, “massas de manobra” depositam cédulas de dinheiro em seus cofres!

Resisti ao Diabo e ele fugirá de vós! Como resistirmos? Com a Palavra fielmente pregada, fielmente crida, fielmente seguida como Jesus nos ensinou na tentação no deserto. Nesta Quaresma, tempo de reflexão, retiro espiritual para nós, sondemos nossos corações de verdade e em verdade e peçamos: endireita, Senhor, nossas veredas e produza em nós a tua conversão! Amém!

Rev. Márcio Retamero – Pastor da Igreja.

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